Respeito como Regra

Respeito como Regra

Autora: Palestrante Mirian Goldenberg

O ano de 2017 é revolucionário. Até muito recentemente, não era comum termos tantas denúncias e contra homens tão poderosos. E isso acontecia porque as mulheres não se sentiam amparadas coletivamente. Hoje, o assédio sexual deixou de ser algo sofrido de forma individual, silenciosa e traumatizante para ser algo compartilhado. Isso muda radicalmente a maneira como se lida com as agressões.

É claro que denúncias existiam no passado, e podemos lembrar de casos como o do diretor Roman Polanski (acusado de abuso sexual em 1977), mas hoje isso é de fato entendido pela sociedade como inaceitável.

Com as denúncias recentes em Hollywood, achei interessante quando a atriz Natalie Portman afirmou que, até ouvir o relato de tantas outras mulheres, ela não tinha percebido a quantidade de situações em que tinha sofrido assédio. Isso porque, no imaginário coletivo, acreditava-se que era parte da natureza masculina ser violento, assediador. O que está acontecendo agora é que não é mais possível acreditar nisso.

No Brasil, creio que tudo se intensificou em 2013, com as jornadas de junho e as reivindicações políticas. Particularmente, senti a partir daí uma grande mudança entre meus alunos, especialmente na postura das meninas em sala de aula. Eu sinto que a explosão começou em 2013 e, em 2017, chegou ao seu ponto sem volta. Esse conjunto de lutas passou a ser não mais apenas de um grupo de jovens libertários para ser da população como um todo.

O protagonismo adquirido pelos grupos que sofreram e sofrem violência — mulheres, gays, negros — fez com que chegássemos ao ponto em que não se admite mais ficar calado. Quantas “brincadeiras”, violências psicológicas e físicas as mulheres sofriam e não sabiam como reagir? E, quando reagiam, eram tratadas como histéricas, exageradas, loucas. Elas eram obrigadas a calar, a sofrer silenciosamente. Hoje, estamos vivendo o momento de gritar, de falar abertamente de tudo. E até quem não percebia essa opressão passou a perceber.

A internet teve papel importante para essa mudança: é possível falar para todos e de forma instantânea. E, quando você vê alguém falando sobre essas questões, você reflete sobre a sua própria vida.

Eu nunca admiti “brincadeiras” sexistas comigo. Mas eu sempre achei que era eu a estranha, porque para os outros isso era normal. Agora não: todas as mulheres que eu conheço são tão ou mais exigentes do que eu. É uma transformação radical.

Este pode ser considerado o ano do “não vamos mais ficar caladas”. Nosso silêncio acabou, nossa vergonha acabou. E não tem mais volta. Acho que é um belo e simbólico fim de ano. Tivemos tantos aspectos difíceis na política e na economia, mas 2017 tem esse lado positivo. Tivemos a conquista do fim do silêncio, da não aceitação de algo que era corriqueiro em nossas vidas. Nesse sentido, é um ano que deve ser celebrado.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/respeito-como-regra-mirian-goldenberg

MIRIAN GOLDENBERG
Antropóloga, Escritora, Professora e Palestrante