O sentido (i)moral do sonho

O sentido (i)moral do sonho

Autor: Palestrante Leni Lourenço

Como nosso sonho noturno representa uma continuidade de nossa vida do estado psicológico de vigília, em sua irrupção, durante o sono, é possível observar as regras sociais, éticas e morais da vida vígil se estendendo a ele, porém, muitas vezes, em sentido inverso, o que, axiomaticamente, causa espanto ao sonhador. Todas as experiências que a vida nos pode dar nem sempre as queríamos ter se pudéssemos escolher. Urge entender isso. Pois bem, vivemos sob uma sociedade altamente castradora que dita todas as regras do “bom-viver”, compreendendo-se com isso que todos nós devemos o tempo todo estar atento aos nossos atos e às nossas atitudes para não incorrermos em algum tipo de desvio de conduta comportamental que vai de encontro àquela que a sociedade impõe sobre nós. Existem inúmeros aparelhos coercitivos sociais cuja função é exatamente controlar nossa vontade e nosso desejo, o que, com extrema frequência, nos impede de fazer aquilo que desejamos interiormente. Tal é a força exterior controladora com o bonito nome de Superego. Dentre as principais instituições controladoras do Superego podemos citar, por exemplo, a família, o trabalho, a faculdade ou universidade, a Igreja, os regulamentos, as leis, a Carta Magna, Estado, o pai, a mãe… De acordo com cada uma destas instituições há um padrão de conduta a seguir.

Tentemos entender um pouco mais a respeito de regras do bom-viver para uma coexistência pacífica por meio de alguns exemplos. A família, por meio da educação informal, nos ensina desde a primeira infância todos os ensinamentos de regras do bom-viver tanto em família quanto em derredor com os nossos semelhantes, quando a criança, em algum momento durante o processo de aprendizagem das regras familiares, chuta o “pau da barraca” ela, logo é repreendida ora física ora verbalmente pelos pais. No trabalho há um contrato de prestação de serviço com horário de entrada e de saída e uma série de deveres e obrigações a cumprir e, quando de alguma forma o funcionário comete algum tipo de transgressão (o que, inclusive, não é incomum) ele é advertido e pode até ser dispensado do quadro de colaboradores da empresa contratante. A faculdade ou universidade espera que seu aluno seja estudioso e que cumpra todos os seus deveres e obrigações a fim de que possa se aprovado, se por algum motivo comete transgressões como a indisciplina ou o descaso pelos estudos sofre as consequências de seus atos. Pode ser reprovado ou até mesmo ser expulso do ambiente universitário.

Pelo que foi exposto no parágrafo anterior, é possível perceber que nós seres humanos somos guiados, interiormente, por um “duplo”, de um lado um “eu” procura ser fiel às regras que a sociedade nos dita para serem seguidas e obedecidas cegamente, de outro, um outro eu com uma outra voz nos diz para fazer o contrário daquilo que está sendo imposto. Isto prova que nós temos uma natureza ambivalente. Somos morais e imorais ao mesmo tempo. Conhecemos as regras que nos impõem a moralidade, todavia, somos impelidos pelos nossos desejos à prática da imoralidade. Somos regidos pelo instinto do prazer e do desprazer. Nem sempre aquilo que é imposto nos causa prazer, assim, tendemos, por meio da máscara social a fazer de conta que aceitamos a imposição de alguma coisa, todavia, sabemos, no fundo de nossa mente, discordamos, principalmente se é algo que nos causa desprazer. E é nos sonhos o local onde nós conseguimos perceber claramente esta predisposição inata a todos nós, a de se desprender daquilo que aparentamos ser na vida real para, sem a dramatização, revelar aquilo que verdadeiramente somos, ou que pensamos.

É por este motivo que nós sonhadores nos surpreendemos conosco mesmos ao nos lembrarmos de um determinado sonho e ficar espantado com aquilo que, no estado onírico, tivemos a coragem de fazer. É comum percebermos que a nossa moralidade dá lugar à imoralidade, a obediência, à transgressão; o amor, ao ódio, a sinceridade, à mentira; a virtude, pelo vício; enfim, a máscara, ao real. Tais são os comportamentos que se verificam na irrupção de nossos sonhos como se nós tivéssemos dentro de nós um persona non grata disposta a agir na contramão da moralidade e de dar vida aos nossos desejos mais profanos e imorais que escondemos sob a capa da máscara social. Vive-se um paradoxo marcado pela ambivalência. Diante deste dilema, “alguns asseveram que os ditames da moralidade não tem lugar nos sonhos, enquanto outros sustentam não menos categoricamente que o caráter moral do homem persiste em sua vida onírica” (FREUD, 2010, p. 45). Independentemente daqueles que apregoam o contrário, a verdade é que, em concordância com Freud, “os ditames da moralidade não tem lugar nos sonhos” e isso se explica por causa dos mecanismos de defesa do Ego.

É isso mesmo, o nosso Ego, durante o estado psicológico de vigília, ante uma situação que cria a hesitação ou mesmo medo, procura, de certa forma, encontrar um meio de nos livrar do conflito; a negação, por exemplo, é uma forma que o Ego encontra para solucionar o problema vivenciado. Todavia, do ponto de vista psicanalítico, o “não” para o inconsciente se transforma em um “sim”. Certamente que o “não” como defesa está ligado à censura, isso não pode ser contestado uma vez que muitas coisas, por serem consideradas dignas de atitudes imorais e desenfreadas, por causa do fator moral, deixam de assumir a posição de protagonista ante nosso Ego. Por outro lado, do ponto de vista de uma religiosidade que contrapõe pecador e não-pecador, carne e espírito, concupiscência e não-concupiscência, o entendimento daquilo defendido muda de sentido. Porque, “o homem virtuoso é também virtuoso em seus sonhos; resiste às tentações e se mantém afastado do ódio, da inveja, da cólera e de outros vícios. Mas o pecador, em geral, encontra em seus sonhos as mesmas imagens que tinha seus olhos quando acordado” (FREUD, 2010, 46). Até que ponto isso é verdade?

Só mesmo, reafirmo, uma conversa franca com o sonhador pode nos dar a dimensão mais exata do que se passa em seu inconsciente durante a deflagração de seu sonho, seja este virtuoso ou não. A técnica, enfim, da análise e interpretação dos sonhos do sonhador é mais complexa do que se imagina, requerendo, portanto, busca de novas alternativas para uma análise e interpretação digna de confiança. Sob este contexto, como bem sinaliza Froom (1969), em “A linguagem esquecida”:

Outras questões relevantes para a técnica de interpretação dos sonhos são: precisamos da associação do sonhador, segundo proclama Freud, ou podemos entender os sonhos sem elas? Outrossim, qual é a relação entre o sonho e os fatos recentes, particularmente, as experiências do sonhador na véspera do sonho, qual sua relação com a personalidade total do sonhador, com o medos e os desejos arraigados em seu caráter?

Um sonho para ser revelado e digno de confiança precisa ser interpretado à luz de uma lógica. E esta lógica é exatamente isso que Froom (1969) revela: conversa com o sonhador para fazer as associações bem como relacionar estas associações com eventos e/ou acontecimentos recentes de que forma eles se coadunam com a personalidade do sonhador. Ademais, para confirmar esta concordância a que chego deve-se levar em consideração, a mesma forma que, “um sonho não apenas evocará associações a acontecimentos do dia, mas também relembrará acontecimentos, fantasia e emoções pertencentes a diferentes épocas e circunstâncias do passado” (SHARPE, 1971, p. 23). Suponhamos, agora, que uma mulher tenha tido um sonho de natureza sexual e que, no sonho, ela tenha se entregado completamente às delícias do amor com um homem aparentemente desconhecido para ela. E que ao conversar pessoalmente com esta mulher verificou-se tratar de uma mulher religiosa, evangélica, bem casada e muito temente a Deus. Quais motivos poderiam ter desencadeado este sonho de caráter sexual representativo de uma imoralidade que, segundo a própria mulher, não faz parte de seu comportamento?

Arrisco-me, aqui, a uma análise teórica a partir de alguns símbolos presentes na curta narrativa e que servem de embasamento para a minha argumentação apropriando-me dos fundamentos da Psicologia Analítica e, mais especificamente, ao problema da linguagem simbólica uma vez que todos os sonhos, sem exceção alguma, manifestam-se por meio deste mecanismo. Poderia, do ponto de vista de uma moralidade, uma mulher religiosa, evangélica, bem casada e muito temente a Deus ter um sonho de adultério, o que vai totalmente em desencontro com sua personalidade? Se analisarmos seu sonhos literalmente chegar-se-á à conclusão que não é cabível esta interpretação. Espera-se, do ponto de vista religioso, que a mulher encontre em seus sonhos as mesmas imagens que tinha seus olhos quando acordada, isto é, resistência às tentações “da carne”, à imoralidade do adultério. Uma análise assim seria muito simples e provavelmente não traria à luz o verdadeiro significado do seu sonho porque nem sempre sonhar com sexo significa, no sentido lato da palavra, sexo propriamente dito ou, no caso desta mulher, de adultério propriamente dito.

O problema é muito maior do que imaginamos. A mulher sonhou que estava tendo relações sexuais com um homem desconhecido. De acordo com a Psicologia Analítica, na verdade, ela teve um sonho como seu aspecto masculino, isto é, o “animus”, o lado masculino presente na mente de cada mulher. O que o “animus” representa na vida de uma mulher? Para entender o “animus” da mulher urge, aqui, saber o que este termo significa. O “animus” refere-se ao princípio masculino como a lei, a ordem e o racional. Observando-se o sonho sob esta ótica o sonho que aqui discutimos passa a ter outra conotação, diferente, portanto, da conotação sexual que aparece quando o analisamos de forma literal ou religiosa.

Agora é possível responder à pergunta. O sonho da mulher pode, sob o aspecto da Psicologia Analítica, estar tentando mostrar-lhe a necessidade de ela apropriar-se dos predicados da lei, da ordem e do racional – aspectos estes típicos do masculino em contraposição ao feminino que é regido mais pelo papel de sentimentos e estados de humor alterados, sensibilidade e irracionalidade. Sob este ponto de vista, o que menos interessa no sonho é a sexualidade, não que isto não represente um desejo da mulher; e, inclusive, pode até estar significando, realmente, dentro do ponto de vista da psicologia freudiana, a realização de um desejo não concluído durante o estado psicológico de vigília. Freud, por exemplo, acredita que este sonho representa a manifestação de uma falta, um desejo reprimido. Por outro lado, embora, o conteúdo manifesto, as imagens que surgem na deflagração do sonho, se mostre por meio de imagens sexuais, imorais para a sonhadora, seu significado sob este novo contexto (função do animus: a lei, a ordem e o racional) passa a ser diferente. Todavia, só é possível chegar a esta conclusão por meio de uma análise direta com a sonhadora.

LENI LOURENÇO
Consultor, Escritor, Psicanalista, Professor e Palestrante