Medo

Medo

Autor: Palestrante Edison Edwin

Eu tinha medo de não dar certo.

Quando tive a ideia de criar uma máquina que distribuiria sapatilhas para as mulheres que estavam cansadas do salto, tive muito medo de que a tentativa de transformar a ideia em realidade não fosse bem-sucedida. Era algo que não existia. Logo eu, tentar fazer isso? E se só eu achasse legal? E se ninguém comprasse a ideia? E se todo o tempo e dinheiro investido fossem em vão? E a vergonha?

Hoje, essa empresa tem 7 anos de vida, realizou quase 8 mil eventos e carrega o título de multinacional. Estamos em 3 países e mais de 10 estados do Brasil. Agora, adivinha? Eu continuo com medo. Eles apenas mudaram um pouco de forma e tamanho. Mas ainda existem.

Aprendi uma coisa com isso: quando estiver com medo, vai com medo mesmo! O medo é o sentimento mais eficaz na vida do ser humano, se bem trabalhado.

Ele traz disciplina, motiva. Faz até acordar cedo, é sério. O diretor de uma empresa pede a um funcionário algo que ele demora em média uma semana para entregar, mas ele pede urgência para o dia seguinte. Com certeza esse funcionário não vai acordar tarde nesse dia. Ele tem medo de não entregar e perder o emprego. O medo deixa o homem romântico. A namorada pega um vacilo do namorado, no outro dia recebe flores, chocolate, até poesia nunca antes feita pelo rapaz, aparece. Medo de perder a mulher que ele ama.

O medo é bom pra tudo. Você trabalha pelo medo de ficar sem recursos, se preocupa com a roupa que vai vestir pelo medo de ser julgado em uma reunião etc.

Só que o medo não controlado, trava. Trava o crescimento. Trava as conquistas. Sob as garras do medo, muito pouco pode ser feito. Ele é uma das coisas que resulta em um obstáculo à felicidade.

Para piorar, hoje em dia há um agravante. Cada vez mais temos mais “ofertas” no nosso dia a dia que aumentam as possibilidades de sentir medo. A internet colabora muito para o aumento dessas ofertas. No ano de 2000, a internet divulgou o Bug do Milênio: o mundo iria acabar, pois ao chegar à meia-noite, os computadores, incapazes de distinguir a data correta já que usavam apenas dois dígitos para registrar o ano, voltariam a 1900. Os aviões cairiam, os bancos zerariam as contas e você perderia os seus depósitos, sua aposentadoria e iríamos todos para a caverna de novo, praticamente. Chegou o ano 2000. Nada aconteceu. Absolutamente nada. O mundo continuou exatamente igual ao mundo do ano anterior.

A internet passou a criar uma possibilidade de divulgar um medo impreciso, um medo capaz de atingir a todos. Tornou coletiva a percepção de uma tragédia. Assim também foi no caso do furacão Katrina, em 2005. Há séculos que algumas partes do mundo são atingidas por furacões, mas a televisão e a internet passaram a mostrar o furacão se aproximando e diziam: “O Katrina está chegando! Não sabemos ainda para qual direção ele vai seguir, mas alguma cidade vai ser destruída!”. As pessoas fugiram de vários lugares e ele atingiu “apenas” Nova Orleans. Foi trágico, mas uma quantidade muito maior de pessoas sentiu medo se pudéssemos fazer uma comparação com um mesmo acontecimento desses antes da internet existir.

Por conta dessa enxurrada de informações a todo tempo, os medos hoje acabam sendo muito maiores e aparecem de todos os lados: medo da falta de água no futuro, medo da falta de segurança, medo do tempo que parece passar cada vez mais rápido, medo de envelhecer e da consequente diminuição da capacidade física, medo do açúcar, medo do glúten.

Podemos facilmente traçar uma ligação à civilização, já que o medo transforma. Como dizia Bauman, “a casca da civilização é frágil e debaixo do meu verniz de educação, existe um cão selvagem”. Exemplificando, podemos imaginar um auditório repleto de pessoas inteligentes, saudáveis, educadas e ordenadas, sentadas para assistir à uma peça de teatro consagrada internacionalmente. Em dado momento, é anunciado, com barulho de portas se fechando, que todos ficarão trancados por um mês e que aos pés do palco encontra-se um pacote de pães para que se alimentem. Eis que o estado da guerra de todos contra todos se instalará automaticamente.

Ou seja, somos educados e simpáticos uns aos outros pois não disputamos a mesma fonte de alimento ou o mesmo ar. Quando se coloca em conflito pelo instinto, ativando o medo no cérebro, nosso “cão selvagem” aflora. A civilização é uma pequena camada, que pode ser eliminada a qualquer momento. Funciona dessa maneira pois o medo não é um sentimento exclusivo dos seres humanos. Os animais também sentem medo. Portanto, podemos entender que o medo não é algo cultural. O medo também é instintivo e biológico.

O medo vem também da fonte de ser excluído e vemos isso a todo tempo. Nos reality shows, o espectador transfere o medo de ser excluído, pelo “poder” de excluir, telefonando. Com isso pode-se transferir o medo de ser excluído, para aquele programa de televisão.

Já se reconhecem novos medos nos dias atuais. Já classificada como doença nos Estados Unidos, temos o FOMO (medo de ficar de fora). Há também a Nomofobia, que é o medo de ficar sem o telefone conectado à internet além também, do medo do celular ficar sem bateria (provoca taquicardia e palpitação nas pessoas).

Curiosamente, quando não temos medo, a chance de morte aumenta. Falta de medo, mata. Excesso de medo, paralisa. As pessoas que tem a doença Riley-Day sempre morrem na juventude. Essa doença faz com que as pessoas não tenham os neuro transmissores da dor. O braço quebra e elas não notam. Se há uma infecção no apêndice, elas não percebem. A dor foi colocada em nós como elemento prudente. Pessoas prudentes teoricamente vão mais longe, enquanto as ousadas têm problemas. Há de se conviver com o medo. A dor e o medo são defesas e precisam ser encarados, com clareza. Há um gráfico positivo sendo desenhado sobre o tema: quanto mais se tem medo, mais se preza por algo. O medo de dano aos filhos é um sinal de amor e assim deve ser interpretado. Deve ser um sinal claro de quanto aqueles seres são importantes para quem os cuida.

O poeta chileno Pablo Neruda disse que Hernan Cortéz, conquistador da América, era um homem mau, pois não tinha origem e nem família. Sob esse olhar, entende-se que quem não tem família, núcleo, parentes, amigos, não tem valor a defender, não tem medo de errar. Não tem nada a perder.

No cotidiano, estamos sempre diante de situações que ativam o medo em nosso cérebro. Diante delas, tendemos a reagir sob 3 pilares. Vou explicar: Você está em uma casa com um bebê sob sua responsabilidade. No meio da madrugada, você escuta um barulho de porta sendo arrombada. Você acorda, com tudo escuro percebe que alguém entrou na casa. Seu cérebro e corpo entram em estado de alerta. Você se prepara para uma das três opções: lutar, fugir ou congelar. São modos de proteção e enquanto você estiver nele, sua mente não consegue lidar com nenhuma outra coisa que não seja neutralizar essa ameaça. Dessas 3 opções, seu cérebro vai decidir qual executar, fazendo uma simulação mental.

Se nessa simulação, que acontece muito rapidamente, você perceber que pode vencer lutando, você vai lutar. Se achar que pode “vencer” fugindo, você vai fugir. Mas, se você achar que não vai vencer lutando e que não pode fugir, você vai escolher a pior das opções: congelar.

Voltando à nossa história, se você olha pelo buraco da fechadura do quarto e vê que foi uma criança de 14 anos que entrou na casa, você vai rapidamente, esbanjando confiança e autoridade, colocá-la para fora. Mas se ao olhar para o buraco da fechadura, se deparar com um homem alto, forte, encapuzado e armado, você provavelmente vai optar pela fuga.

Agora, se você olhar pela fechadura, ver esse homem armado, olhar pela janela do quarto e perceber que a casa está cercada por homens com semelhante descrição do que invadiu a casa, você vai optar por congelar: tentar não ser visto até que o perigo passe. Não estou dizendo aqui que nesse caso, o mais inteligente seria enfrentar o homem armado. É apenas uma analogia para que entenda, que é isso que ocorre no nosso subconsciente. É a forma que o cérebro entende como forma de sobrevivência, sempre! Porém, não estamos diariamente em uma situação em que alguém armado invadiu a nossa casa, certo? Então precisamos estar atentos para não agir de acordo com essas reações.

Como muitos instintos primitivos, o cérebro pode se enganar sobre quando utilizar essa ferramenta, pois está condicionado a isso. É um gatilho, uma forma de reagir que pode ser ativada em um momento inapropriado.

Esse travamento já fez sentido no passado, nos nossos ancestrais, pois ele provavelmente significava a diferença entre a vida e a morte. Foi projetado para cuidar de nossa sobrevivência, por isso foca em procurar problemas e exalta o lado negativo das situações.

Hoje em dia as causas não são tão graves, mas talvez sejam crônicas. Existem formas de lidar com isso e para isso, tem que se estar atento a esses gatilhos. Isso acontece inclusive, com grandes empresários. Empresas em momentos de crise, onde precisariam agir, tomar medidas, reduzir custos se necessário, mudar cenários, enfrentar, lutar, simplesmente congelam e não fazem nada.

Funcionários que ao perceber que a empresa onde trabalham tem feito cortes resultando em inúmeras demissões, diminuem a produtividade pelo medo. Deveria ser o contrário, certo? Se eu sei que estão demitindo as pessoas, vou trabalhar mais e mostrar o meu valor para que eu possa garantir o meu lugar, mas não. O medo trava. Uma pessoa que não aguenta mais o seu emprego e quer pedir demissão para começar a empreender, tende a fazer simulações mentais, focando no negativo. Em seu imaginário, ela pede demissão, perde a sua “estabilidade”, gasta suas reservas em um negócio que não vai dar certo, vai gerar problemas trabalhistas, dívidas, vai perder a confiança da esposa, resultando em um divórcio, etc. Depois de imaginar tudo isso, ela prefere não arriscar e continuar sendo infeliz, mas com “segurança”. O medo trava.

O externo desperta esse gatilho e paralisa.

E você? Está sentindo um alerta na sua vida? Ouviu o barulho de alguém entrando na casa? Não o ignore. Isso só vai aumentar o tamanho do problema até chegar o momento em que você não vai mais conseguir ignorá-lo e não vai mais ter o que fazer pois a derrota já estará decretada.

Cuidado com as simulações mentais.

Trate-o como se não fosse uma ameaça. Racionalize os motivos pelo qual aquilo não é uma ameaça. Foque na solução. Não foque no problema. Ao fazer isso, a suposta ameaça deixa de ser ameaça.

Não há como mudar o passado, mas há como resolver o problema.

Olhe bem.

Não é um homem alto, forte, encapuzado e armado.

Não é.

EDISON EDWIN
Empresário, Publicitário e Palestrante